A mancha de inundação de barragens representa a área que seria afetada pelo fluxo liberado em caso de ruptura de uma estrutura de contenção.
Em barragens de rejeitos, esse fluxo carrega material particulado com comportamento reológico distinto da água, o que torna o impacto a jusante consideravelmente mais grave do que em rupturas de barragens convencionais.
A mancha é o mapa que define onde a onda chega, em quanto tempo e com qual extensão, e é a partir dela que todas as ações do Plano de Ação de Emergência são estruturadas.
Para as operações de mineração no Brasil, a elaboração da mancha de inundação deixou de ser recomendação técnica e passou a ser exigência regulatória.
A Resolução ANM 95/2022 estabelece que barragens com alto Dano Potencial Associado (DPA) precisam ter o PAEBM elaborado, e a mancha é o documento que sustenta as zonas de autossalvamento, os pontos de encontro e os sistemas de alerta previstos no plano.
Como a mancha de inundação é obtida na prática
A mancha de inundação é produto de simulações numéricas que modelam o comportamento do fluxo liberado ao longo do vale a jusante da barragem. Três conjuntos de dados alimentam essas simulações:
- A geometria da brecha de ruptura
- As características do material armazenado
- A topografia do terreno por onde o fluxo se propaga
A geometria da brecha define como a estrutura falha: largura de abertura, profundidade e tempo de formação.
Esses parâmetros são estimados com base em modelos empíricos e nas características construtivas da barragem.
Quaisquer variações nessas premissas afetam diretamente a extensão e a velocidade da onda, por isso a análise de sensibilidade é parte necessária de qualquer estudo tecnicamente consistente.
A qualidade da simulação depende diretamente da precisão dos dados topográficos utilizados. Modelos digitais de terreno com baixa resolução podem subestimar ou superestimar a área inundada, principalmente em vales com geometria complexa.
Por isso, estudos mais robustos têm priorizado dados LiDAR com resolução submétrica, que permitem representar melhor o relevo e identificar os elementos vulneráveis que podem ser atingidos pela onda de inundação.
Com essa base, ferramentas como o HEC-RAS 2D, desenvolvido pelo U.S. Army Corps of Engineers, e o Iber, de acesso livre, permitem realizar simulações hidrodinâmicas.
Para barragens de menor porte e análises preliminares, a ANM aceita métodos simplificados baseados na interpretação topográfica, como o modelo LNEC.
Já em barragens com alto DPA e comunidades a jusante, a simulação hidrodinâmica bidimensional completa é a abordagem tecnicamente mais adequada, pois permite avaliar a propagação da onda com maior detalhamento.

A relação entre mancha de inundação e as zonas do PAEBM
O PAEBM organiza a resposta emergencial em zonas definidas diretamente a partir da mancha de inundação. A Resolução ANM 95/2022 estabelece que o plano deve contemplar:
- Zona de Autossalvamento (ZAS): área onde o tempo de chegada da onda é tão curto que não permite ação coordenada de Defesa Civil. A evacuação precisa ser imediata, o que faz da ZAS o perímetro de maior criticidade do plano
- Zona de Segurança Secundária (ZSS): área além da ZAS onde há tempo para evacuação coordenada com apoio da Defesa Civil
- Pontos de encontro e rotas de fuga: definidos com base nos tempos de chegada da onda nos diferentes pontos do vale
A confiabilidade dessas zonas depende diretamente da qualidade do estudo de mancha. Uma ZAS subdimensionada coloca pessoas em risco que o plano de emergência não contempla.
Uma ZAS superdimensionada gera alertas desnecessários que, com o tempo, comprometem a credibilidade do sistema com as comunidades e a Defesa Civil.
O que muda com a Resolução ANM 220/2025
A Resolução ANM 220/2025 atualizou as normas de segurança de barragens e criou requisitos específicos para estudos de ruptura hipotética, com exigências mais detalhadas sobre metodologia, premissas de brecha e análise de sensibilidade.
Entre os pontos que merecem atenção das operações em adequação à nova resolução estão:
- Obrigatoriedade de revisão dos estudos quando há alteração significativa nas condições da barragem, como alteamentos ou mudanças no volume armazenado
- Necessidade de compatibilização entre os mapas de inundação e os sistemas de alerta implantados
- Prazo definido para atualização dos mapas em estruturas que não atendem aos novos critérios metodológicos
Estudos elaborados antes de 2025 com metodologias simplificadas precisam ser reavaliados quanto à adequação às novas exigências, especialmente para barragens que passaram por alteamentos recentes ou que têm comunidades a jusante não contempladas nos estudos anteriores.
O que integra um estudo de mancha de inundação completo
Um estudo tecnicamente completo vai além da geração do mapa. Ele precisa incluir documentação das premissas adotadas, análise de sensibilidade das variáveis críticas, validação com dados topográficos atualizados e compatibilização com os elementos do PAEBM.
Os itens que compõem um estudo adequado para fins regulatórios incluem:
- Caracterização hidráulica e geotécnica da barragem e do reservatório
- Definição das premissas de brecha com justificativa técnica
- Simulação hidrodinâmica com software adequado ao porte e ao DPA da estrutura
- Análise de sensibilidade das premissas principais
- Mapa de inundação com delimitação de ZAS e ZSS
- Tempos de chegada da onda nos pontos críticos a jusante
- Identificação de elementos vulneráveis: populações, infraestrutura, corpos hídricos
Como a Apoan apoia estudos de mancha de inundação
Na Apoan Engenharia, os estudos de mancha de inundação são desenvolvidos como parte integrada da análise de segurança da barragem de rejeitos, não como documento isolado para cumprimento de exigência.
Nossa equipe combina modelagem hidrodinâmica com conhecimento geotécnico da estrutura, garantindo que as premissas de brecha sejam fundamentadas nas características reais da barragem.
Nossa atuação nesse tipo de estudo abrange:
- Elaboração de estudos de ruptura hipotética com simulação 2D para barragens com alto DPA
- Definição de premissas de brecha baseadas nas características construtivas e no histórico da estrutura
- Compatibilização entre os mapas de inundação e as zonas do PAEBM conforme a Resolução ANM 95/2022
- Revisão e atualização de estudos existentes para adequação à Resolução ANM 220/2025
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