Sobre o autor: Marcelo Schwenck Galvão é graduado em Geologia desde 2013, além de especialista em Geotecnia, mestre em Geologia de Engenharia e doutorando em Geotecnia. Atua em variados projetos geotécnicos aplicados à mineração (pilhas, barragens, obras lineares), com ênfase em Projetos de Cava à Céu Aberto.
A Geotecnia é uma ciência de interfaces entre a Engenharia e as Geociências, com o objetivo de prever o comportamento de solos e rochas em obras de engenharia.
Participam desta multidisciplinaridade 3 pilares indissociáveis: a Geologia de Engenharia, a Mecânica dos Solos e a Mecânica das Rochas.
Livros-texto atuais ainda acrescentam um quarto pilar: a Hidrologia/Hidrogeologia.
Todavia, na prática profissional, não há um consenso sobre quem é o profissional Geotécnico. Frequentemente, esse termo é usado como sinônimo de Engenheiro Civil, independentemente de ser apenas gradado como tal ou com pós pós-graduação em Geotecnia
Essa visão acaba por “marginalizar” outras formações importantes, como a dos geólogos, que também fazem parte desse tripé (ou quadripé, se preferirem) de profissionais que atuam na área geotécnica.

As raízes brasileiras da equivalência entre Geotecnia, Mecânica dos Solos e Engenharia Civil
Na década de 1950, a chegada de Karl von Terzaghi ao Brasil, “pai da Mecânica dos Solos”, marcou profundamente o desenvolvimento da Geotecnia brasileira.
A convite de Milton Vargas, seus estudos nos solos tropicais brasileiros foram interpretados e sistematizados pela ótica da mecânica dos solos, o que reforçou a importância e a primazia dessa abordagem na prática geotécnica.
Dessa forma, a Geotecnia no Brasil não emergiu como um campo equilibrado. Ela se desenvolveu a partir da ótica da Mecânica dos Solos, importada, expandida e institucionalizada principalmente pela Engenharia Civil.
Enquanto isso, a Mecânica das Rochas, que ainda buscava se consolidar, e principalmente a Geologia de Engenharia, em estágio embrionário, eram vistas como etapa preliminar e meramente descritiva do processo, um insumo para o trabalho de engenharia “real” e não parte integral do projeto geotécnico.
Embora haja cooperação entre áreas, a existência de duas associações distintas, a ABMS e a ABGE, reflete o sentimento de comunidades separadas entre os profissionais Geotécnicos.

O que dizem as normas e atribuições profissionais?
As leis nº 4.076/1962 (que regula a profissão de Geólogos e Engenheiros Geólogos) e nº 5.194/1966 (de igual função para Engenheiros e Arquitetos) não excluem geólogos de funções geotécnicas.
Pelo contrário, a prática de mercado parece ignorar o que o sistema profissional permite claramente.
O que dizem as resoluções do CONFEA?
A Resolução nº 218/73 atribui ao Engenheiro Civil competências como barragens, diques, pontes e grandes estruturas.
Já a Resolução nº 1.010/2005 atribui explicitamente aos Geólogos de Engenharia competências em Geotecnia, incluindo:
- Mecânica de Solos e Rochas
- Mapeamento Geotécnico
- Análise de Risco Geológico
- Sondagens
O mesmo vale para Engenheiros de Minas, com atribuições em Mecânica dos Solos, das Rochas e Mapeamento Geotécnico.
O paradoxo do título “Geotécnico” no mercado
Apesar das normativas claras, o mercado, especialmente em Minas Gerais, associa o título de Geotécnico quase exclusivamente ao Engenheiro Civil. Basta uma rápida pesquisa no LinkedIn para constatar isso.
A situação se agrava quando a ART (Anotação de Responsabilidade Técnica) para geólogos é preferencialmente direcionada a serviços preliminares, sem respaldo legal para excluir sua atuação em projetos completos.
Reflexos da formação acadêmica na atuação geotécnica
Embora o curso de Geologia inclua, no seu círculo básico, as mesmas disciplinas da Engenharia como Cálculos, Físicas, Álgebras e Químicas, a base quantitativa da Engenharia Civil (principalmente nas escolas onde a Geotecnia é tradicional) é mais robusta e direcionada ao Projeto Geotécnico.
Enquanto engenheiros civis cursam disciplinas como:
- Mecânica dos Solos I e II
- Fundações
- Obras de Terra e Enrocamento
- Estabilidade de Taludes
Os geólogos têm enfoque geotécnico em:
- Geologia de Engenharia
- Hidrogeologia
- Geotecnia Aplicada
- Mapeamento de descontinuidades estruturais e entendimento dos processos intempéricos
Especialização pós-graduada e barreiras do mercado
Muitos geólogos buscam especialização, mestrado e doutorado em Geotecnia. Mesmo assim, é comum que o mercado ainda use o diploma de graduação como principal critério de seleção, perpetuando a divisão.
A academia forma especialistas em projeto (engenheiros civis) e em caracterização (geólogos). O mercado, por sua vez, valoriza o profissional que assina o projeto e responde pela estabilidade estrutural, cujo diploma costuma ser o critério entrave para os não Engenheiros Civis..
Essa lógica relega, na maioria as vezes, o geólogo a uma etapa anterior e subordinada. A grande ironia: desastres como Mariana e Brumadinho mostram que muitas falhas não são, necessariamente, de cálculo das estruturas, mas da pouca ou insuficiente importância desprendidas à caracterização geológico-geotécnicas da fundação (interpretação geológica), a especialidade do geólogo.

Caminhos possíveis para mudar esse cenário
A Lei nº 15.026/24 equipara os diplomas de Geologia e Engenharia Geológica e permite o apostilamento profissional como Engenheiro Geólogo.
Além disso, define que esses profissionais integram o grupo “Engenharia”, como já previsto na Lei nº 5.194/66.
Isso abre portas para maior isonomia salarial e acesso a cursos de especialização restritos a engenheiros.
Cultura de mercado precisa mudar
O apostilamento atinge diretamente o principal filtro usado por RHs e recrutadores: o título profissional. Mas a mudança mais profunda deve ocorrer na cultura técnica do setor.
Precisamos reconhecer as capacidades técnicas dos geólogos e sua contribuição contínua e estratégica para a Geotecnia.
Considerações pessoais e um ponto de inflexão na Geotecnia
Minha trajetória profissional sempre esteve ao lado de engenheiros e engenheiras por quem tenho profunda admiração. Com cada um aprendi e compartilhei um pouco sobre as diferentes áreas da Geotecnia.
Hoje, atuar como Coordenador de Projetos na Apoan Engenharia representa, para mim, um reconhecimento da capacidade técnica dos geólogos em posições-chave dentro de empresas de Geotecnia.
Esse reconhecimento é vital para o desenvolvimento do setor.
Um futuro justo para a Geotecnia brasileira
Para construirmos uma Geotecnia sólida, responsável, justa e inclusiva, precisamos romper com a falácia do “dotô” – conceito elitista e tradicional no Brasil que prejudica nossas relações profissionais.
Os engenheiros e geólogos devem caminhar juntos, respeitando as competências, formações e contribuições de cada um, somando-se.
Só assim, fortaleceremos a prática geotécnica e reduziremos riscos como os que marcaram tragicamente a história recente da mineração no Brasil.

Atuamos com responsabilidade técnica, visão integrada e respeito à multidisciplinaridade
Na Apoan Engenharia, acreditamos que a Geotecnia deve integrar saberes, formações e experiências, sem hierarquias ou exclusões.
Valorizamos a excelência técnica e o respeito às competências legais de cada profissional, seja engenheiro civil, geólogo ou engenheiro de minas.
Nosso time atua em projetos de alta complexidade, com foco em segurança, sustentabilidade e responsabilidade técnica integral. Desenvolvemos soluções completas em:
- Mecânica dos Solos e das Rochas
- Geotecnia aplicada à mineração (pilhas, barragens, cavas, taludes e outros)
- Projetos e monitoramentos geotécnicos
- Mapeamentos e análises de risco geológico
- Estudos hidrológicos, hidráulicos e hidrogeológicos.
Se você busca uma empresa que reconhece a importância de uma Geotecnia justa, técnica e colaborativa, fale com a nossa equipe.




